03/03/08, eu acordei, sai e me deparei com a seguinte cena:
Era a terceira ou quarta vez que os via a caminhar por ali. Não me dei ao trabalho de contar, até porque a beleza da cena tomava conta de tudo em volta, e quem se lembrar de números nessa hora. Os dois pareciam tão leves e limpos que flutuavam ao invés de caminhar. Era inebriante vê-los a sorrir e conversar de mãos dadas em meio ao verde que tomava conta da pracinha...Já deviam beirar os 70 ou 80 anos, mas vistos com outros olhos pareciam duas crianças a descobrir o amor. O relógio marcava 8:00h da manhã e o frio dava tapinhas de leve nas costas a medida que o vento soprava na direção oposta aos primeiros raios da manhã. As nuvens não deixavam o sol se mostrar por inteiro, apenas uns filetes de luz em alguns pontos distintos. Tudo ainda estava muito úmido por causa da chuva da noite anterior, as pessoas apareciam aos poucos e os carros quase não passavam por ali, o que permitia a permanecia do silencio quebrado as vezes por passarinhos. Os dois ali, tão inatingíveis a caminhar docemente dando voltas ao redor do verde limpinho e eu sentada no chão frio, meio encolhida a espera de algo que nem eu sabia o que era, admirando o quão felizes pareciam estar. O tempo podia passar o quanto fosse, a chuva podia cair, ou ate mesmo o mundo, o frio, o calor, a fome...nada parecia poder quebrar a graciosidade do que eu via. Nada.
A cena era só minha, ninguém alem de mim podia perceber a magnitude de tudo aquilo. Era como se uma paz repentina tomasse conta do lugar, de mim e deles e fizesse que tudo que não fosse belo se esvaísse. Não havia lugar pra nada além de felicidade. Uma felicidade calma, capaz de suportar até mais de 80 anos, serena e linda. Um amor imenso, desses que todo mundo sonha em ter, eu senti tudo isso. Perdi a noção de tempo e espaço, me perdi no meio deles e fiquei ali ate que sumissem de vista...sentada, quieta, como se qualquer movimento brusco meu pudesse estragar tudo.
Ele a segurava com tamanho cuidado e doçura e ia sem nenhuma pressa rumo a outra volta no verde. As árvores os escondiam ao longe e os raios de sol os iluminavam em certos pontos do caminho, deixando tudo cada vez mais belo.
Não sentia a mínima vontade de me desfazer daquilo tudo, daquele mundo. Nada em mim se movia além do olhar...
E eles se foram e eu fiquei. A emoção foi tamanha por algo tão bobo e simples que a ida dos dois foi simultânea as lágrimas que senti rolarem pelo rosto. Sequer me dei ao trabalho de enxugá-las e sumi, junto com eles pensando comigo se esses amor todo ainda podia ser meu.
Ana Beatriz Vasconcelos